sexta-feira, 1 de maio de 2015

Análise: Auto da Barca do Inferno

Primeiramente, preciso falar sobre esse grande autor! Gil Vicente é conhecido como: “pai do teatro português”, foi um grande dramaturgo, poeta, músico, ator e encenador.
As principais obras do autor foram:

- Auto Pastoril Castelhano
- Autor dos Reis Magos
- Auto da Sibila Cassandra
- Trilogia de sátiras:  Auto da Barca do Inferno, Autor da Barca do Purgatório e Autor da Barca da Glória.
- A Farsa de Inês Pereira

(Caso queiram a análise e resenha de outro livro dele, escrevam nos comentários).

          Hoje vou falar sobre principal obra do autor: “Autor da Barca do Inferno”, considerada por muitas pessoas como um livro de difícil compreensão e análise. Basicamente relata o julgamento pós-morte de algumas pessoas. Essas pessoas estão divididas em dois grupos: alegóricos e personagens. No grupo de alegóricos estão: Anjo e o Diabo, no qual representam o Bem e o Mal. Ao longo da obra, eles são como juízes do julgamento das almas, pois sabem os pecados dos que passam pelo “purgatório”. No grupo de personagens estão: Fidalgo, Onzeneiro, Parvo, Sapateiro, Frade, Florença,  Alcoviteira, Judeu, Corregedor, Procurador, Enforcado e os Quatro Cavaleiros e o companheiro do Diabo. Reparem que momento algum, o autor dá um nome aos personagens, pois, ele quer retratar a sociedade de Lisboa nas décadas do século XVI. Agora vem a grande dúvida: “Por que esse livro é considerado contemporâneo?” Assim que analisarmos as personagens, percebemos que os assuntos envolvidos em cada um, são pertinentes até hoje.
Anjo: de poucas palavras, intervêm quando necessário. Não utiliza argumentos insistentes, pois acredita que os passageiros de sua embarcação já carregam as marcas de seus pecados. Raramente utiliza argumentos irônicos e aguarda o embarque das almas puras.

Diabo: fala horrores, tem voz ativa e devido o caráter persuasivo, faz que a Barca do Inferno, pareça uma viagem agradável. Para convencer as personagens, acusa-as pelos seus erros quando em vida. É extremamente sarcástico, dominador e tem pressa pela “viagem”, utiliza o canto para seduzir as almas. 

Companheiro do Diabo: cúmplice do Arrais do Inferno (Diabo), apenas concorda com o seu mestre e não tem voz ativa.

Fidalgo: é a nobreza, arrogante devido sua posição social e acredita que merece embarcar na Barca do Anjo. É a alma que mais argumenta e que tem voz ativa. A crítica do autor é pelas pessoas que se apegam ao status e bens materiais. 
Onzeneiro: representa o agiota e é considerado pelo próprio Diabo como parente, porque que se aproveita da desgraça dos outros para tirar proveito.


Parvo: representa o povo e não leva nada. É um homem honesto e humilde, que por suas qualidades foi o primeiro a embarcar com o Anjo. 

Sapateiro: representa o comércio; quando em vida, vivia de aparência, enganava as pessoas cobrando sempre a mais pelo serviço prestado. Por morrer confessado, acreditou que embarcaria rumo ao Céu, porém, o Anjo disse que, para as pessoas que foram roubadas, o desígnio é o maior pecado. A crítica que Gil Vicente queria mostrar desse personagem era a defesa pelo Cristianismo, que mesmo o Sapateiro sendo ruim, foi comungado e confessado a beira da morte.

Frade: representa a Igreja, devido o ofício, achava-se digno do Paraíso, mesmo que uma companheira, que foi o seu maior pecado. Com isso, ele chega à conclusão que a Barca do Inferno é o seu lugar.

Florença: jovem que acompanha o Frade. A personagem não tem nenhuma fala, mas sabe que vai para a Barca do Inferno por ter sido companhia carnal do frade.

Alcoviteira: Brísida Vaz traz consigo muitos objetos dos quais fazia uso quando em vida (himens postiços), no quais inventava que as moças oferecidas eram virgens, com isso arrumava casamentos e ganhava muito dinheiro. Seu argumento para entrar na Barca do Anjo, foi invocar a Santa Úrsula para que o Anjo sentisse pena de sua alma. Para a Alcoviteira, como proporcionava bens aos usuários de seus serviços, seria dispensada do inferno, entretanto ludibriar o outro também é um pecado fatal.

Judeu: é totalmente apegado ao dinheiro. Os judeus não eram bem vistos naquela época, pela sociedade, sendo até perseguidos pelos católicos. O ponto principal é como o Judeu desdobra-se para embarcar o bode (símbolo da personagem), oferecendo dinheiro ao Diabo, sendo assim, nem mesmo o Diabo o aceita. Mesmo o Judeu sendo um pecado, pelo seu apego ao dinheiro, após a leitura do livro, ele parecer ser o pior dos pecadores, merecendo o Inferno bem mais que os outros.

Corregedor: representa a Justiça. Utiliza uma forma de linguagem profissional, para mostrar sua importância como juiz. Porém, o Corregedor traz como bagagem a mais, o pecado da corrupção e venda de sentenças, com isso embarca para o Inferno. 

Procurador: representa o advogado. A crítica feita por Gil Vicente, é que toda a Justiça era corrupta.

Enforcado: é a personagem que achava que por ter sofrido com a morte, tinha pagado seus pecados e com isso merecia embarcar na Barca do Céu. Porém, para a Igreja, o ato de tirar a própria vida é condenação certa para ir ao Inferno.

Quatro Cavaleiros: morreram lutando pelo Cristianismo, e por isso, os homicídios praticados pelos mesmos, são perdoáveis, já que a causa que defendiam era a divulgação da fé. O Diabo ainda pergunta por que os passaram pela sua barca e foram direto para a barda do Anjo, e os cavaleiros com voz ativa na obra, respondem que morreram por Jesus Cristo, e por isso não embarcariam na Barca do Inferno. O pensamento relatado é da época das Cruzadas (século XVI).

Vale a pena ler a obra. É uma leitura contemporânea e devido as falas do Diabo com os personagens, torna-se uma leitura agradável e engraçada. 
Vou deixar o link de um episódio, da série: "Tudo Que É Sólido Pode Derreter", feita pela TV Cultura, no qual, a personagem principal interpreta o livro de Gil Vicente, com a morte do seu tio.


4 comentários:

  1. Já conhecia essa obra . Isso porque fiz um trabalho sobre ela no colégio e afirmo que achei bem difícil de entender , lembro que algumas vezes até pedi ajuda á minha professora :)
    Mas é a tal coisa né ... clássico é clássico , e é sempre bom lê-los.

    http://coisasdediane.blogspot.com.br/

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    1. Exatamente Diane, clássico é clássico. rs
      É uma obra bem difícil mesmo, porém, vale a pena a leitura!
      Beijos

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  2. Acabei lendo essa obra complexa dramática na faculdade de história e realmente não é nada fácil essa leitura e vcs começaram bem falando dos personagens e caso façam a resenha com certeza eu vou querer ler.

    O blog Armazém do Chef traz para os seus leitores, seguidores e amigos blogueiros, mais um sorteio. Dessa vez, o livro sorteado será Culinária Chinesa - deliciosas receitas de sopas, legumes, carnes, frutos do mar, macarrão e sobremesas. E pra participar é fácil, click no link, leia o regulamento, preenche o formulário e pronto.
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    1. Olá Bruno!
      É uma leitura complicada mesmo.
      Eu pretendo fazer a resenha, mas vou esperar liberar as datas dos vestibulares, assim os vestibulandos tem um complemento para as provas ;)
      Beijos

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